[Para Marven. Irmão-poeta de vida e sonhos.]
"Não há poema em si, mas em mim ou em ti."
[Otávio Paz]
I
Tempo; oh, tempo rude, oh!
Com um erguimento sem lógica
alçaste o poeta a céus de quartzo-magma. E os vômitos da antes-lauda rasurada
e os espinhos-fêmeos cravados em tumbas indormidas
são soluços que cabem em ti ― como cartase poética
onde cabem
burburinhos mortificados.
Tempo; oh, tempo rude, oh!
Como uma somatória de estrelas mal calculada
caíste em sarjeta de gramáticas torpes. E os efeitos da nervura da palma
e a torpe falação do reparte
e a flutuação verborrágica da após-partida
permanecem em ti
até que o lume da lágrima seja revestido de salivas assexuadas
e uivos reinventados;
até que o porvir da lauda hermafrodita
seja resguardado da agonia recozida
― como cárceres frígidos onde não cabem
olhares crucificados.
II
Tempo; oh, tempo rude, oh!
Covarde como uma mortalha pendente no santuário do medo
rasgaste o manto da coragem e amadureceste o sonho mal vingado.
Sim. O poeta é de sempre [oh, tempo indefinível!]:
o que faze tu hoje
é a mesma castração de verbo amargoso que fizeste em recurva conjeturada
sob calibre de açoite langoroso.
Tempo; oh, tempo rude, oh!
Agora o vômito
e o pingo da gôta de silêncio num poema baldio
para salvar o sacrifício poético da moenda solitária,
dos anéis de fumo infartado,
dos gôzos mui debulhados.
Lá fora
a evocação do fuzil ingênuo nos símiles das falações
― e a puta e a vidente e o jardineiro recolhendo
folhas do abandono.
Lá fora
o vergar da aurora nos tímpanos das algemas
― e o guru e o monge e o pedreiro reinventando
verbos-filhos do amanhã.
III
Tempo; oh, tempo rude, oh!
Sou e sou
a contradição amarga que [vos] toca
― o âmago!